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sexta-feira, 28 de março de 2008

COMO CULTIVAR ORQUÍDEAS

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Ele dobra a esquina correndo, lhe falta fôlego. Corre há quase 9 quarteirões1. Mantém o ritmo alguns segundos e para em frente à porta daquela pequena agência dos Correios, em um bairro residencial, afastado do centro da cidade, colorido pelo verde de grandes árvores no outono. Vê-se o funcionário baixando a porta com precisão. Segurando a carta, ele tenta sem sucesso, explicar-se.
- Senhor, preciso postar essa carta. – diz com voz quase embargada, devido à pressão que faz nos pulmões por ter bruscamente se curvado para baixo.
- Só segunda agora! – berra o funcionário por trás da porta de metal, deixando a calça amarela à mostra apenas até os joelhos e só, por alguns instantes.
- Mas é urgente!
A porta baixa e só ele permanece do lado de fora. Atordoado, olha para o relógio. 18h01. Meio com raiva de si e de seu atraso, bate as mãos na cintura em desaprovação e ao levantar os braços pro céu em descontentamento eis que um vaso cai entre suas mãos, quase aterrissando, sem esforço algum ou qualquer desequilíbrio.
Para e pensa: De onde veio isso? - De onde veio isso! – Ajeita o vaso em suas mãos. Esgueira-se um pouco mais, em direção a ponta da calçada. Olha para cima. Vê um enorme prédio. Fica imaginando que não pode ter caído de muito alto, caso contrário o vaso teria partido sua cabeça ao meio e ele teria morrido ali mesmo. Procura. Procura e não vê qualquer sinal da presença de outra pessoa em nenhuma das janelas. Ele fixa o olhar nos primeiros andares de onde talvez o vaso tenha caído. Volta um pouco e encosta-se na discreta portaria.
- Alguém aqui no prédio cultiva orquídeas?
O porteiro dá com os ombros. Não faz a mínima idéia se alguém gosta de plantas, ele é novo ali, porém já meio velho e, não está interessado em interfonar para os 111 condôminos perguntando tal coisa.
Ele olha novamente para o relógio. 18h09. Ergue a cabeça subitamente, mirando num ponto de ônibus na próxima esquina. Parece que esta na hora do ônibus que o levaria de volta pra casa passar2. Correndo mais um pouco, consegue pagar o cobrador, passar pela catraca de cromo enferrujada do tubo. O ônibus para em sua frente. As portas se abrem e ele caminha, pouca coisa para o fundo.
Deixa o vaso com as orquídeas roxas num banco ao lado do seu. Tratando-se da hora, o vagão deveria estar lotado, mas hoje há poucas pessoas e não foi nenhum sacrifício escolher o lugar, perto da penúltima porta, do lado direito, onde há enorme vidraça. Uma ou outra pessoa está sentada atrás.
Está absorto olhando para fora. Permanece assim durante algum tempo, até que o ônibus faz sua primeira parada.
Sobem quatro pessoas. Duas senhoras entram conversando e um rapaz todo de branco. Elas vão para frente e ele para no meio. Uma garota vem mais atrás, é a mais apressada e ao que parece, deveria ter corrido um pouco. Carrega uma bolsa grande, de palha talvez, mas também tem uns tecidos coloridos. Ela caminha para escolher um lugar, seus olhos escuros passeiam ligeiramente por ele e pela orquídea. Ela está ao mesmo tempo, escolhendo lugar para sentar e tirando um maço de seu cabelo encaracolado que enroscou na alça da bolsa pendurada em seu ombro esquerdo.

1 O motivo da demora, sem dúvida se deve a difícil decisão, que levou a tarde toda para ser tomada e mais alguns minutos para ser escrita.
2 Naquele dia, o ônibus que ele costuma pegar, demorou a passar quando ele veio, mas foi pontual na volta.


Senta na poltrona ao lado, do lado esquerdo em direção a rua. Também há uma enorme vidraça. Pouco tempo depois, o ônibus faz uma virada brusca. Entretido em seus pensamentos, o rapaz, continua atordoado, afinal amanhã é feriado e ele só vai poder postar a carta na segunda-feira e seu plano, consequentemente falhará.
Ele segura a carta com o colo e relê o que escreveu:

LUIZ HENRIQUE NETTO
Alameda Barão de Moraes, 123 – ap 04
Água Verde – 81710-230 – Curitiba – PR


O ônibus faz uma curva. A orquídea perde a estabilidade e despenca do banco. Visto o susto, com medo de amassar a carta, seu reflexo mal consegue definir se quer segurar ou ajudar o vaso a cair. Percebendo o fato, a garota imediatamente pega o vaso com as mãos e devolve ao banco.
- Você gosta de orquídeas? – pergunta sem deixar que ele possa, talvez, agradecer.
Ele diz que são bonitas, mas que não são dele.
Ela pergunta se é para presente.
- Não, não é presente.
- Eu amo plantas – ela diz. Elas dão encanto para a vida da gente.
Ele olha o relógio. 18h25. To atrasado. Diz baixinho, mantendo os olhos sobre o relógio.
Nesse momento ela desvia o olhar, acomoda-se novamente e puxa uma revista da bolsa. Abre e começa a folhear. Deixando de interagir. Até que se passam alguns instantes.
- Tem hora pra tudo não é? Quase morri hoje.
Ela para de ler no mesmo instante e doa toda a sua atenção a ele.
- Esse vaso despencou de um prédio e eu segurei.
- Como segurou? – fala sem pausa. Você viu cair? Não conseguiu desviar?
- Nem foi assim. – diz, com um tom de voz bem monótono.
Ela dobra o pescoço com energia e olhando para ele faz uma cara de espanto e curiosidade. Levanta-se ajeitando a revista dentro da bolsa novamente, mudando de banco, puxa a bolsa até o ombro, segura o vaso e senta, colocando-o ao colo, mantendo o olhar sobre ele, o rapaz.
- Eu estava nervoso, ergui as mãos pra cima sabe... e ele caiu.
- Puxa!
- É, puxa...
- Mas você tá vivo e ainda por cima ganhou uma orquídea linda.
- Ela caiu... – ele diz, relembrando-a que a planta despencou.
- Mas ta aí com você – retruca a garota.
- Eu tentei devolver.
- Às vezes, algo cai na mão de alguém, porque precisa... porque, precisa ir pra outro, pra... pra poder continuar... é a vida, sabe... sei lá!
O ônibus para. Preciso descer ela diz. Ele pede para que ela leve a orquídea. Ela agradece.
- Como você se chama?
- Luiz.
- Foi bom conhecer você. Meu nome é Cristina.
- Ah, valeu.
Ela acena em tchau com a mão, suavemente como uma garota delicada faria. Ele então sorri, pela primeira vez hoje.
Ela sai pela porta do ônibus, desce a escadaria. Ele a olha continuamente pelo vidro. Ela também, sorri, mas logo vira-se e caminha em direção aonde quer que esteja indo.
Ele olha para o relógio. Olha para a carta novamente.
Abre.

A idosa retira o vaso da orquídea roxa de cima da mesa.
- Minha querida, você precisa de sol pra viver. Vamos para a janela agora mesm...
Sem conseguir terminar de falar ainda que com aquela voz doce e fraca, já na beirada daquela pequena janela com uma bancada de plantas, a velhinha sucumbe em algum tipo de infarto. O vaso com a orquídea roxa desliza por suas mãos. Ela padece esbarrada naquele pedaço de parede, quase se apoiando no balcão meio frouxo encostado ali.

Segurando a carta, Luiz termina de ler a última linha do que havia escrito naquela tarde3.


... por isso desfaço-me de minha vida.

Luiz Henrique Netto


Ele amassa a carta e o envelope embolando-os com as duas mãos. Aperta bem e joga no lixo pendurado na parede do ônibus4. Não chega a expressar uma feição de alívio, mas sabe que tomou a decisão mais correta que já lhe ocorreu.
E não foi por acaso.



3 Para um solitário, as justificativas só valem para si mesmo.
4 Só vemos o ônibus indo embora, subindo a rua e se escondendo por trás da copa das árvores bem verdes.


Cristiano Hackl 28/03/2008


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4 comentários:

Kijar disse...

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Massagem disse...

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Garoto, Interrompido disse...

definitivamente...lirico e lindo...assim como...a triste sina...de uma fina e...orquidea

Gustavo Bravin disse...

Estou parabenizando a revista como cultivar orquideas por nos ensinar a cultivar essa planta muito bonita e tão conplicada, tenho apenas 10 exemplares entre eles uma cattleya harrisoniana, gostaria que publicasse uma materia sobre essa orquidea pois não sei muito sobre essa planta, agradeço e sou um leitor fiel, não tenho todas as revistas, mas estou tentando adiquirir , MUITO OBRIGADO E ATÉ A PROXIMA.